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sábado, 20 de março de 2010

A história de amor



















Agora que já temos uma pequena noção do contexto histórico da época e de quem são os intervenientes desta triste história, vou, finalmente, contar-vos o quão especial ela é e os fortes sentimentos que desperta.

A história de Inês de Castro é, permitam-me a ousadia da afirmação, a mais bela história de amor da nossa história.
O facto da lenda ter tido um final trágico, acabando na vingança do Rei, de passar de geração em geração com a imagem de um “amor proibido” e, mais importante, de ter sido imortalizada por dezenas de autores nacionais e internacionais ao nível da musica, do teatro, do cinema, da pintura, da literatura e os sentimentos expressos por estes, como se estivessem a vivê-los, faz com que tenha uma relevância ainda maior na História de Portugal.
Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 119


Já foi, também, explicado que Inês de Castro era uma aia de D. Constança Manuel, mulher de D. Pedro I, e que viajou com esta para Portugal.
A beleza de Inês de Castro era tal que impressionava os homens da corte.

Não é difícil de prever que se viriam a tornar amantes, facto que, obviamente, perturbava bastante D. Constança.
Assim, aquando do nascimento do primeiro filho de D. Pedro e D. Constança – D. Luís –, a rainha convida Inês de Castro para madrinha do filho de forma a impedir o relacionamento do marido com esta, uma vez que na época era considerada uma “relação de parentesco espirituosa”.

Mas a sorte não estava do lado de D. Constança e a criança acabaria por morrer sem completar um ano de idade.
Rapidamente, surgiram rumores na corte e no povo de que a madrinha não tinha proferido bem as palavras de baptismo, facto que fez com que D. Afonso IV expulsasse Inês de Castro para Espanha.

Apesar de tudo, não foi desta forma que o amor de D. Pedro e D. Inês acabou. Pelo contrário, ainda ficou mais intenso!
Comunicavam-se por cartas que eram transportadas por almocreves (pessoas que transportavam mercadorias de terra em terra) para não levantar quaisquer suspeitas.

D. Constança Manuel morre em 1345, enquanto dava à luz D. Fernando.
Como já, aqui, foi referido, “D. Pedro consegue que D. Inês regresse a Portugal e instalam-se em diversos locais na zona da Lourinhã e por último em Coimbra, onde passam a viver uma vida de marido e mulher, da qual nascem quatro filhos.”
D. Afonso IV tenta arranjar formas de separar o seu filho daquela que em tempos fora aia da Rainha D. Constança Manuel. Mas em vão!
Assim, El-Rei decide tomar uma decisão definitiva, isto é, mandou matar Inês de Castro.

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co'o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.

Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 123

Quais as razões que levaram D. Afonso IV a não concordar com a relação entre o seu filho e D. Inês de Castro?

Nunca houve consenso em relação a esta questão. Ao longo dos tempos surgiram diversas versões mas nenhuma delas é, suficientemente, convincente:

- Uma das versões diz que Inês de Castro foi assassinada porque havia, na corte, quem temesse que D. Pedro beneficiasse os Castro (que eram uma poderosa família Castelhana) em detrimento de alguns elementos da nobreza portuguesa;

Fará sentido matar a mulher do príncipe herdeiro por medo da família desta?
Esta situação não poderá ter um efeito contrário e D. Pedro aproximar-se ainda mais dos Castro?

- Outra das versões diz que a morte de Inês de Castro era uma forma de salvaguardar os interesses de D. Fernando, legitimo herdeiro, pois se este morresse quem subiria ao trono seria um dos filhos da ligação de D. Pedro com D. Inês de Castro. Assim, os Castro poderiam ser beneficiados se alguém da sua família estivesse no trono.

Fará sentido matar Inês de Castro, nestas circunstâncias, sendo que o seu filho mais velho é que poderia aspirar a subir ao trono e nunca a mãe?

- Há ainda quem diga que, como Castela estava envolvida numa guerra civil para derrubar o Rei e os Castro estavam envolvidos, tendo pedido auxílio a D. Pedro e prometendo-lhe que em caso de vitória aclamavam-no Rei (a mãe de D. Pedro, D. Beatriz, era filha de Sancho IV de Castela), D. Pedro poderia arranjar problemas e colocar-se numa situação arriscada. De facto, o príncipe estava mesmo decidido e só a proibição de D. Afonso IV evitou que se envolvesse na guerra. Assim, os nobres portugueses convenceram El-Rei que, com a morte de Inês de Castro, D. Pedro esqueceria o assunto e não era tão influenciado por esta.

Ainda assim, esta é a versão mais crível. Mas, fará sentido que D. Pedro desista da ideia pelo facto do assassinato da sua amada?

A morte de D. Inês de Castro

Inês de Castro foi degolada a 7 de Janeiro de 1355, em Coimbra, onde é hoje a Quinta das Lágrimas, por Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e ainda com a presença de El-Rei D. Afonso IV, ao qual suplicou que lhe deixasse viver alegando como razão os filhos que também eram seus netos e prometendo-lhe que abandonaria o país.
O Rei comovido ainda pensou perdoar-lhe mas os executores não o influenciaram nesse sentido.

Queria perdoar-lhe o Rei benigno,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.

Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 130

A vingança de D. Pedro

Quando D. Pedro descobriu o que aconteceu à sua amada, ficou enraivecido e, apesar de ter prometido ao seu pai, enquanto este ainda era vivo, que nada faria contra os executores de Inês de Castro (que entretanto se tinham exililado em Castela), mal subiu ao trono (1357) vingou-se deles.
Fez um acordo com Pedro - o cruel - Rei de Castela, que consistia numa troca:
O Rei de Castela mandava capturar os assassinos de Inês de Castro e D. Pedro mandava capturar uns nobres Castelhanos que estavam exililados em Portugal. De seguida, procedia-se às trocas.
Contudo, apenas Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves foram capturados pois Diogo Lopes Pacheco conseguiu escapar.
Segundo a lenda, D. Pedro mandou arrancar o coração de um pelo peito e do outro pelas costas e depois foram queimados os corpos.

Depois de morta... foi Rainha

Em 1360, D. Pedro I anunciou que tinha casado, em segredo, com D. Inês de Castro e mandou construir dois túmulos (um para D. Inês de Castro e outro para ele quando morresse) que são o esplendor da arte gótica em Portugal, sitos no Mosteiro de Alcobaça.

O caso triste, e digno da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.

Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 118

Fontes:

Alçada, Isabel et al. História de Portugal - Tempos de Revolução. Vol. III. Caminho, Lisboa, 1995. pp. 20-22

Pintura de José de Guimarães, Variações Camonianas

Agradecimento especial à Clara pelo primeiro desenho

domingo, 14 de março de 2010

Quem foi D. Pedro I?

D. Pedro I, “o Justiceiro” ou “o Cruel”, filho de D. Afonso IV e de D. Beatriz de Castela, nasceu em Coimbra a 8 de Abril de 1320 e foi o oitavo rei de Portugal, sucedendo a seu pai em 1357.

D. Pedro casou com D. Branca de Castela, filha do rei de Castela, com apenas oito anos, mas acabou por desistir deste casamento pois a menina sofria de uma doença grave e em 1336, volta a casar, desta vez com D. Constança Manuel, filha de D. João Manuel e de D. Constança de Aragão, em 1340.

No séquito de D. Constança veio para Portugal D. Inês de Castro, por quem D. Pedro se apaixona e de quem teve quatro filhos, com ela protagonizando uma dos mais belos romances da nossa História.

Depois da morte de D. Inês de Castro, a mando de seu pai, D. Pedro revoltou-se contra este e invadiu e destruiu terras a norte do Douro não conseguindo entrar apenas no Porto. A paz é restabelecida no mês de Agosto de 1355 em Canaveses com a ajuda de D. Beatriz que serviu de medianeira, entre o rei e o seu filho, até os conseguir reconciliar. Desde logo D. Afonso chama D. Pedro a participar no poder e D. Pedro promete perdão a todos os que ajudaram na morte da sua amada. Após a morte de seu pai é aclamado rei de Portugal, em 28 de Maio de 1357, com 37 anos de idade.

Apesar da paz assinada com seu pai, D. Pedro I nunca perdoou aos executores da sentença de D. Inês de Castro e prendeu os três fidalgos. Embora um deles tivesse conseguido escapar, os outros dois assassinos foram torturados e por fim queimados depois de o próprio rei D. Pedro I lhes ter arrancado o coração, a um pelo peito e ao outro pelas costas.

D. Pedro I provou ter casado com D. Inês de Castro procurando dar legitimidade aos filhos que teve com ela e impôs que a reconhecessem como rainha de Portugal apesar de morta.

Em 1360 mandou fazer dois túmulos onde se encontram os seus restos mortais em frente dos de D. Inês de Castro na capela-mor da igreja do mosteiro de Alcobaça.

D. Pedro I acabou por morrer, em Estremoz, a 18 de Janeiro de 1367 após o seu curto reinado de dez anos, num período pacífico, em que se gozou os bens abundantes que o país ia produzindo sem qualquer sobressalto.

A descrição dos biógrafos afirma que D. Pedro era:

“Grande de corpo, e de fermosa presença, […] a bocca teve grande, e engraçada, e o rosto algum tanto largo, mas bem corado. Era muito gago na falla, e bem atentado em suas respostas […] de sua propria, e natural inclinação rigoroso, e mui amigo de executar a pena das leis sem misericordia […] amicíssimo de danças, e folias Portuguezas […]. Deleitava-se com musica de trombetas, e as tinha de prata […]”


Fontes:

De Sousa, Manuel. Reis e Rainhas de Portugal. Sporpress, Mem-Martins. pp. 55, 56.

Alçada, Isabel et al. História de Portugal - Tempos de Revolução. Vol. III. Caminho, Lisboa, 1995. pp. 17-25

URL:http://www.escolavirtual.pt

quinta-feira, 11 de março de 2010

O século XIV em Portugal: Os Reinados de D. Afonso IV e D. Pedro I

Um cronista muito especial

Fernão Lopes (1378? - 1459?), uma das maiores figuras da literatura da época.
Escreveu as crónicas dos Reis D. Pedro I, D. Fernando e D. João I que são a base de muito do que se sabe, hoje em dia, acerca deste período da história.
Por que semelhante amor, qual
El-Rei Dom Pedro ouve a Dona
Enes, raramente he achado em
alguuma pessoa

Fernão Lopes, Crónica do Senhor Rei Dom Pedro

A crise do século XIV na Europa e em Portugal

Um pouco por toda a Europa, uma sucessão de Invernos chuvosos afectou grande parte da agricultura, originando fomes.
A isto, juntou-se um grande surto de epidemias sendo que, a mais mortal e conhecida, foi a peste negra.
Estes problemas, em conjunto, provocaram, para além de uma elevada mortalidade e consequente quebra demográfica, uma grande baixa na produção, inflação e aumento dos impostos. Começaram, assim, as primeiras revoltas populares.
Portugal não foi excepção e os Reinados de D. Afonso IV (1325-1357), D. Pedro I (1357-1367) e D. Fernando (1367-1383) foram, fortemente, afectados pondo termo a um período de desenvolvimento que foi apanágio das épocas dos seus antecessores, D. Afonso III e D. Dinis.
Para diminuir os efeitos da crise, os monarcas tomaram algumas medidas como, por exemplo, as leis sobre o trabalho e tabelamento dos salários, no caso de D. Afonso IV.


A ascensão ao trono e reinando de D. Afonso IV

Entre 1319 e 1324, D. Afonso IV entrou em conflito com o seu pai devido a uma relação muito próxima entre D. Dinis e D. Afonso Sanches (filho bastardo), ou seja, D. Afonso IV tinha medo que o pai pudesse entregar o trono a D. Afonso Sanches. Desencadeia-se, assim, uma guerra civil que opunha defensores das duas facções.
D. Afonso IV - O Bravo - sobe ao trono em 1325. O seu cognome relaciona-se com o facto de este ter sido "bravo" em duas situações: a primeira quando invadiu a fronteira de Castela pois uma das suas filhas era casada e maltratada pelo Rei de Castela (Afonso XI) e a segunda após a grande vitória na Batalha do Salado.


Reinado de D. Pedro I

D. Pedro - O Justiceiro - governou o Reino de Portugal durante dez anos (1357-1367).
Segundo Saraiva, José Hermano (1989), "escreveu Fernão Lopes, que nunca tais dez anos houve em Portugal como aqueles em que reinou El-Rei D. Pedro. Esse sentimento exprimia a saudade dos tempos, que depois não se repetiram, da aliança entre a coroa e as forças populares."


Fontes:

Alçada, Isabel et al. História de Portugal - Tempos de Revolução. Vol. III. Caminho, Lisboa, 1995. pp. 14

Saraiva, José Hermano. História Concisa de Portugal. Ed 13. Publicações Europa-América, Lisboa, 1989. pp. 87-90