A história de Inês de Castro é, permitam-me a ousadia da afirmação, a mais bela história de amor da nossa história.
O facto da lenda ter tido um final trágico, acabando na vingança do Rei, de passar de geração em geração com a imagem de um “amor proibido” e, mais importante, de ter sido imortalizada por dezenas de autores nacionais e internacionais ao nível da musica, do teatro, do cinema, da pintura, da literatura e os sentimentos expressos por estes, como se estivessem a vivê-los, faz com que tenha uma relevância ainda maior na História de Portugal.
Tu, só tu, puro amor, com força crua,Que os corações humanos tanto obriga,Deste causa à molesta morte sua,Como se fora pérfida inimiga.Se dizem, fero Amor, que a sede tuaNem com lágrimas tristes se mitiga,É porque queres, áspero e tirano,Tuas aras banhar em sangue humano.Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 119
A beleza de Inês de Castro era tal que impressionava os homens da corte.
Não é difícil de prever que se viriam a tornar amantes, facto que, obviamente, perturbava bastante D. Constança.
Assim, aquando do nascimento do primeiro filho de D. Pedro e D. Constança – D. Luís –, a rainha convida Inês de Castro para madrinha do filho de forma a impedir o relacionamento do marido com esta, uma vez que na época era considerada uma “relação de parentesco espirituosa”.
Mas a sorte não estava do lado de D. Constança e a criança acabaria por morrer sem completar um ano de idade.
Rapidamente, surgiram rumores na corte e no povo de que a madrinha não tinha proferido bem as palavras de baptismo, facto que fez com que D. Afonso IV expulsasse Inês de Castro para Espanha.
Apesar de tudo, não foi desta forma que o amor de D. Pedro e D. Inês acabou. Pelo contrário, ainda ficou mais intenso!
Comunicavam-se por cartas que eram transportadas por almocreves (pessoas que transportavam mercadorias de terra em terra) para não levantar quaisquer suspeitas.
D. Constança Manuel morre em 1345, enquanto dava à luz D. Fernando.
Como já, aqui, foi referido, “D. Pedro consegue que D. Inês regresse a Portugal e instalam-se em diversos locais na zona da Lourinhã e por último em Coimbra, onde passam a viver uma vida de marido e mulher, da qual nascem quatro filhos.”
Assim, El-Rei decide tomar uma decisão definitiva, isto é, mandou matar Inês de Castro.
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co'o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 123
Nunca houve consenso em relação a esta questão. Ao longo dos tempos surgiram diversas versões mas nenhuma delas é, suficientemente, convincente:
- Uma das versões diz que Inês de Castro foi assassinada porque havia, na corte, quem temesse que D. Pedro beneficiasse os Castro (que eram uma poderosa família Castelhana) em detrimento de alguns elementos da nobreza portuguesa;
Fará sentido matar a mulher do príncipe herdeiro por medo da família desta?
Esta situação não poderá ter um efeito contrário e D. Pedro aproximar-se ainda mais dos Castro?
- Outra das versões diz que a morte de Inês de Castro era uma forma de salvaguardar os interesses de D. Fernando, legitimo herdeiro, pois se este morresse quem subiria ao trono seria um dos filhos da ligação de D. Pedro com D. Inês de Castro. Assim, os Castro poderiam ser beneficiados se alguém da sua família estivesse no trono.
Fará sentido matar Inês de Castro, nestas circunstâncias, sendo que o seu filho mais velho é que poderia aspirar a subir ao trono e nunca a mãe?
- Há ainda quem diga que, como Castela estava envolvida numa guerra civil para derrubar o Rei e os Castro estavam envolvidos, tendo pedido auxílio a D. Pedro e prometendo-lhe que em caso de vitória aclamavam-no Rei (a mãe de D. Pedro, D. Beatriz, era filha de Sancho IV de Castela), D. Pedro poderia arranjar problemas e colocar-se numa situação arriscada. De facto, o príncipe estava mesmo decidido e só a proibição de D. Afonso IV evitou que se envolvesse na guerra. Assim, os nobres portugueses convenceram El-Rei que, com a morte de Inês de Castro, D. Pedro esqueceria o assunto e não era tão influenciado por esta.
Ainda assim, esta é a versão mais crível. Mas, fará sentido que D. Pedro desista da ideia pelo facto do assassinato da sua amada?
Inês de Castro foi degolada a 7 de Janeiro de 1355, em Coimbra, onde é hoje a Quinta das Lágrimas, por Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e ainda com a presença de El-Rei D. Afonso IV, ao qual suplicou que lhe deixasse viver alegando como razão os filhos que também eram seus netos e prometendo-lhe que abandonaria o país.
O Rei comovido ainda pensou perdoar-lhe mas os executores não o influenciaram nesse sentido.
Queria perdoar-lhe o Rei benigno,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 130
O caso triste, e digno da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.
Camões, Luís Vaz. Os Lusíadas, Canto III, est. 118

